terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Terça-Feira da 1ª Semana do Advento - 01/12

Is 11,1-10, Sl 71, Lc 10,21-24

Nesta terça-feira, o profeta Isaías prevê a vinda do salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo. No Evangelho, Cristo deixa claro que Ele é a resposta para todas, literalmente todas as perguntas humanas, e que ouvi-Lo (tal como os apóstolos fizeram) é um privilégio que os profetas morreriam para ter. Hoje, Jesus Cristo fala por meio da Igreja, que ensina sua doutrina e torna novamente presente o Sacrifício do Calvário em cada missa. Não o ouvimos pessoalmente, mas através da obscuridade da fé. Entretanto, nós o ouvimos. Como foi dito ontem, como alguém crerá que se não ouviu? Nós ouvimos, e ouvindo, precisamos tomar uma decisão de segui-Lo. Isso não pode ficar no campo do abstrato, deve levar a um objetivo concreto, um "o que devo fazer aqui e agora". E a busca de um objetivo exige, evidentemente, um planejamento, um plano de vida que engloba todos os seus aspectos. Em primeiro lugar, é necessário tomar consciência de quem sou eu. Um homem adulto, doutorando em física, em breve único sustentador da casa (embora já seja o principal), pai de duas crianças (uma ainda no ventre da mamãe). É dessa realidade a respeito de quem sou é que brotam as minhas responsabilidades. O Senhor quer que frutifiquemos onde estamos plantados, e é o nosso estado de vida que dita como isso deve ser feito. Mas como fazer algo bom? Em Deus, percebendo que Ele está presente, nos olhando paternalmente, disposto a nos ajudar quando nós pedimos a Ele. Agradaremos a Deus quando nós fizermos bem àquilo que é de nosso dever. O trabalho diário e o cuidado com os nossos são, efetivamente, aquilo que determina a nossa "regra de vida", e deveríamos seguir tal regra com a disposição de um monge que segue sua regra. A nossa vida precisa de ordem, e uma ordem que reflita o objetivo final dela. Senhor, o objetivo final de nossa vida é ir para junto de Vós. Refletir na sua presença e vigiar constantemente... isso é ter esperança, pois nossa vida estará em função de uma promessa ainda não realizada, mas que sabemos, pela autoridade de quem nos relevou, que se realizará. Como vigiar, sem rezar o tempo todo? Como querer muito estar no céu, com Cristo pra sempre, se nos momentos vagos nós preferimos procrastinar e ler sobre qualquer coisa que seja, a revelia de um momento de oração ou meditação? 

 Resumindo, o Salvador veio e quer vir em nossos corações. Precisamos trabalhar duro, com perfeição humana e sobrenatural, para construir um belo presépio pra Ele, e isso será feito através do cumprimento amoroso de nossas tarefas diárias. Mas só desejaremos recebe-Lo se conversarmos com Ele, se nós silenciarmos nosso coração pras coisas carnais, de modo a ouvir a vós dAquele que dá sentido a todo o nosso esforço, e que nos fortalece para que consigamos vencer as provações. Rezar é difícil, e devemos começar aos poucos, mas a meta é que a oração seja o nosso consolo e o nosso deleite. Rezando para bem trabalhar, e trabalhando para melhor rezar, oferecendo nosso "touro sem mancha" no altar cósmico, caminharemos na direção de nosso sentido último. Ó Jesus, já falhei na minha manhã. Obrigado por terdes me dado força para erguer a cabeça e ler a liturgia diária, para ouvir a Vossa voz. Ajudai-me a não perder o foco, a manter meus olhos fixos na Vossa figura imponente. Ajuda-me a vigiar, me perguntando sempre o que estais achando de minha atitude. Ajuda-me, pela intercessão da Santíssima Virgem Maria, a ser verdadeiramente um homem de verdade, ciente de seus deveres, profundamente forte em Cristo e profundamente humilde.

 Hoje, com a Vossa graça, planejarei minha rotina pormenorizadamente, e seguirei-a como uma regra monástica. Ajuda-me, Senhor, a ser fiel, a não me conformar na minha falta de virtude!

 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Segunda-Feira da 1ª Semana do Advento - 30/11/2020

Rm 10,9-18, Sl 18, Mt 4,18-22

Hoje comemoramos o dia de Santo André e também a primeira liturgia ferial do Advento. A carta aos Romanos, escrita por São Paulo, deixa clara a necessidade do anúncio da salvação em Jesus Cristo. No mundo, alguns buscam a verdade, outros, a maioria, já se amortizou nos prazeres mundanos, e vivem para uma esperança imanente que esconde um profundo desespero que emerge nos momentos de provação. Tudo isso se dá porque as pessoas, hoje em dia, não sabe de onde vieram, não sabem porque estão neste mundo, não sabem pra onde devem ir. O anúncio do Evangelho tem um caráter existencial, porque nos revela o sentido de nossa vida, e proporciona a possibilidade de vivermos, de buscarmos aquilo que devemos buscar para que sejamos, no final das contas, felizes. É Deus o sentido último de nossa vida, esse Deus que se encarnou na pessoa de Jesus Cristo e que, pela graça recebida no batismo e ao longo da vida, nos permite pouco a pouco viver uma vida que participa da vida divina de Jesus, que é plenamente feliz e realizado em si mesmo. 

 Ora, no mundo de hoje, pós-cristão, onde palhaçadas tipo "Black Mirror" expressam bem a decadência civilizacional, ninguém mais sabe pra que está aqui. Os mais grosseiros buscam o prazer, os mais ambiciosos buscam "deixar um legado e serem lembrados", se esquecendo de que a maior das vaidades é se importar com o que pensarão de você depois que você morrer. O anúncio é, como sempre foi, necessário. Cristo se revelou para nós, nos pescando deste mundo biruta, e Ele quer pescar outros homens através de nós. Como fazer isso? Certamente não é fugindo de nossa realidade concreta, mas realizando-a com perfeição sobrenatural, a qual brota de uma vida de oração íntima, de frequência nos sacramentos, de um beber contínuo da fonte de todo Bem, Deus mesmo. Não trabalho por causa de mim mesmo, nem sequer trabalho por causa de minha família em si mesma. Devo trabalhar por causa de Deus, e enxergando "outros Cristos" por imagem e semelhança em minha família, trabalharei por eles. Vendo "outros Cristos" nas pessoas que eu poderia influenciar numa universidade, eu trabalharei por eles. Percebendo que a física é matematização do mundo bom criado por Deus, trabalharei para entende-la. Meu Jesus, ajudai-me a entender que devo fazer o que eu devo fazer e estar no que estou fazendo. Ajuda-me a perceber que a fuga do trabalho é uma ofensa a vós, e fazer um trabalho distraidamente é oferecer bois defeituosos no altar cósmico da criação. Ajuda-me a perceber que poderia revelar muitos a Vós sendo verdadeiramente católico e verdadeiramente competente em minhas ocupações. Ajuda-me a não querer viver outra vida que não seja a minha. Eu sou eu e minha circunstância: com a Vossa graça, ajuda-me a ver eu tudo ocasião da santificação, pois eu sei que tudo é, pois Vossa providência engloba tudo. 

Ó, Virgem Sacratíssima, rogai a Deus por nós! Santo André, rogai por nós!

Santo André

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Quinta-Feira da 34ª Semana do Tempo Comum - 26/11

Ap 18,1-2.21-23; 19,1-3.9a, Sl 99, Lc 21,20-28

E se inicia mais um dia, e, no aproximar-se de Sábado, último dia (efetivamente) do ano litúrgico, o tom nas leituras soa cada vez mais apocalíptico. Como diz o Pe. Jonas, a mensagem do Apocalipse não é de desgraça, mas de esperança. Hoje, talvez mais fortemente que em qualquer época da história, as oportunidades de dissipação e satisfação dos prazeres são tão grandes que nos cegam para o verdadeiro caráter deste mundo: ele é caduco. Existe, efetivamente (como já notou até o macumbeiro do Wolfgang Smith), uma contraposição essencial entre a dissipação e o foco no Único necessário. Efetivamente, saltar de um fato, pra outro fato, pra outro fato, sem focar em nada, nos faz alcançar somente a superfície das coisas criadas. Trabalhar sem concentração (e sem amor: sem amor, nada vale) também faz com que fiquemos na superfície. Ora, o homem não foi feito para a superficialidade, porque a superficialidade é contingente, ela se refere a algo que passa. É esse o grande perigo da dissipação, pois o homem se torna um "pródigo" intelectual, as coisas que passam pela sua mente são simplesmente consumidas, e ele caminha como um dragão faminto e furioso, a queimar e devorar todas as coisas, sem se atentar pra aquilo que elas são. Pelo contrário, todas as coisas são sustentadas na realidade, recebendo de Deus um ser participado, que as traz a existência. Todas elas estão ligadas por isso que as torna reais. Elas não tem o fundamento em si mesmas, mas apontam para Aquele que as sustenta. Sendo belas, refletem a beleza do artista, que as fez com perfeição conforme suas ideias eternas, e é a Ele que devemos chegar por meio da contemplação das criaturas. Não que as coisas sejam ruins, pelo contrário, elas são boas, e refletem a Bondade infinita Daquele que as fez. 
 No cotidiano, vale o mesmo. É fortíssima a nossa tendência à dissipação, mas quando nos concentramos, pedindo a graça de Deus, numa tarefa, ela (se for uma tarefa que conversa com nosso estado de vida e nosso dever associado) cria uma significação existencial pra nós. Meditamos nas pessoas beneficiadas por aquele nosso esforço, meditamos no verdadeiro combate espiritual, no "carregar a pequena cruz" que é esse esforço para nos unirmos a Cristo no trabalho cotidiano. Conseguimos, sob uma janela ofuscada, evidentemente, perceber o grande sentido daquela tarefa no todo de nossa vida, numa vida que deve se iluminar em seu sentido diante de Deus, que quer nos transformar em "outros Cristos". Amar o que se faz, perceber a graça de Deus agindo, é impossível se se fica na dissipação. Deste modo, a própria atitude de se dissipar é contrária à santificação na vida diária, e o é de modo muito radical. Ó Jesus, que essa verdade se entranhe em mim de tal forma que me gere repugnância o seu descumprir! Que eu jamais pense que é "ok" dar vazão à curiosidade no meio de um dia de trabalho! Tirar a mente de Deus pra focar na multiplicidade das criaturas? As criaturas que não são necessárias, que passam, que se corrompem? O Templo caiu, um dia até as "forças do universo" entrarão em colapso, mas o mesmo que conduz a história continuará a conduzindo, até que ela chegue ao seu termo. Aí, tudo que está aí passará, e valerá o nosso amor por Deus, o amor que praticamos, o zelo pelas coisas Dele, o perceber que tudo no mundo foi feito por Ele, o perceber que em cada homem, há, pela graça, um "outro Cristo" (pela fé) em potencial, que deve ser amado e servido. 

 Que, pela intercessão da Virgem, possamos nos concentrar na tarefa que fazemos, de modo a encaixar esta mesma tarefa, sob a luz da Graça, no sentido último da nossa vida, Deus mesmo. Essa tarefa pode ser qualquer: trabalhar, estudar, cuidar de pessoas... o importante é que a façamos com o coração em Deus e a mente focada na tarefa. Que possamos fugir da dissipação, ó Jesus, como Vossa Mãe, que viveu a vida inteira sem retirar do coração o Senhor dos Céus e da Terra. Louvado Seja Nosso Senhor, Jesus Cristo.


E tudo ruirá




quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Quarta-Feira da 34ª Semana do Tempo Comum - 25/11

Ap 15,1-4, Sl 97, Lc 21,12-19


"Não prepareis a vossa defesa, pois o Senhor Vos dará palavras acertadas". Em continuidade com a maravilhosa homilia n.1640 do Padre Paulo Ricardo, meditamos no fato de que Deus nos dá a Sua graça no hoje. Quantas vezes não temos a tendência de sofrer por antecipação? "Ah, como é que eu vou reagir perante situação x que pode acontecer em tal momento?". Ora, é evidente que não seremos aceitos pela maioria das pessoas se vivermos e pregarmos o Evangelho com palavras e com a vida. A maioria das pessoas não tem "boa vontade", pois a boa vontade exige o negar a si mesmo, exige se humilhar e colocar diante da Verdade que se impõe. Ora, até eu, que busco (talvez com fraqueza de vontade, mas busco) viver uma vida reta, muitas vezes me percebo ficando ofendido com alguma verdade moral evidente que irá exigir uma mudança de vida! Deste modo, não seremos aceitos. Mas Deus diz que nos dará "palavras acertadas". Isso significa que Ele sempre dará a graça para que enfrentemos a situação de agora, a situação presente. Se minha situação é arranjar força de vontade para trabalhar bem, pro bem da família e oferecendo o sacrifício por aqueles que precisam, é pra isso que Deus me dará a graça. Toda fuga da situação concreta presente, numa busca desordenada do "o que eu vou fazer?", leva a um embotamento e a um ignorar da graça "atual", não no sentido teológico, mas no sentido de "graça dada no aqui e no agora". É no hoje que poderemos ser santos, pois o hoje é a única coisa que nos pertence. O passado já não pode ser mudado, e o futuro ainda não está no nosso alcance.

Neste dia de hoje, ajudai-me, Senhor, a ouvir a Vossa voz, que sussurra na nossa consciência. A abraçar a tua Graça, que nos ajuda a cumprir o que devemos cumprir, para que nos tornemos menos imperfeitos diante de Vossos olhos. Acaba o tempo litúrgico, e devemos nos lembrar que tudo passa. Mas não passa jamais aquilo que fizemos em Deus, não passa jamais a nossa amizade com Cristo, que se concretiza no fazer por Ele e nEle tudo aquilo que cabe a nós. Que pela intercessão da Virgem, refúgio dos pecadores, possamos desconfiar de nós e confiar em Deus, aproveitando a graça que Ele dá a todos aqueles que Lho pedem. 




 

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Terça-Feira da 34ª Semana do Tempo Comum - 24/11/2020

Ap 14,14-19, Sl 95, Lc 21,5-11

A liturgia de hoje vêm nos lembrar de uma grande verdade de nossa fé: Jesus Cristo virá para julgar este mundo, que encontrará então o seu termo. A nossa tendência normal, dada a quantidade de estímulos e a quantidade de pessoas falando "coisas legais", é viver na multiplicidade dissipativa, buscando estímulos externos e dando vazão ou para a curiositas (o mais típico pra mim) ou para a busca desordenada de prazeres sensíveis (meu pavor de banho gelado nos últimos dias deve ligar o meu sinal de alerta pra isso também). Se a pessoa contesta a importância de tudo isso, se eleva até a questão do sentido da vida, da causa final pela qual fazemos os atos que fazemos. Isso nos leva (claro, se tivermos a consciência de pedir a Deus tal clareza, porque por nós mesmos não fazemos nada de bom) a uma vida mais digna, mais refletida, mais humana. Mas a coisa é que não para por aí. Não é que cada pessoa individualmente vá ser julgada pelos seus atos e acaba por aí. Ressuscitaremos na carne e Cristo julgará todos os homens e toda a história humana, depois de ocorrer tudo aquilo que está previsto. Todo mal-entendido será desfeito, toda injustiça, desvelada, todo falso virtuoso, desmerecido, todo homem injustiçado, reabilitado. Perceberemos o valor dos atos individuais, seu peso na história, suas consequências na salvação e na perdição de multidões. Tudo isso se dará depois que certos eventos acontecerem, eventos estes que ao mesmo tempo são sinal do fim e necessários para o mesmo fim, como a conversão dos judeus e a "abominação da desolação no lugar santo". O mais impressionante é perceber que isso não é uma metáfora ou qualquer coisa do gênero: a ressurreição da carne se dará, este juízo fantástico se dará, o mundo, tão sólido e tão perene, chegará ao seu fim, e Ele criará "novos céus e nova terra". 
O mundo caminha para uma má direção, e é fácil se entristecer com o rumo tomado pelas pessoas em conjunto. Cada vez mais cresce o secularismo radical, e com ele seus frutos, como a perda do respeito pela dignidade da vida humana, a busca desordenada pelos prazeres, o ódio à religião e, em geral, uma ideia totalmente equivocada a respeito daquilo que é o verdadeiro sentido e norte da vida humana. Mas tudo está nos planos de Deus. Tudo é perpassado pela inteligência infinita do Ser Absoluto, de Deus, cujo Logos Eterno se encarnou para nos salvar e também para nos fazer perceber que o Senhor tira bem até do mal que Ele permite. Tudo está nos planos Dele, e tudo se encaixará no final, onde derrotados serão aqueles que escolheram o lado derrotado, e vitoriosos serão aqueles que viveram para Ele. 

Me confessei hoje: antes ser um sem-vergonha cretino que se confessa do que um soberbo que quer se reerguer sozinho. Mais uma vez perdi tempo procrastinando, vendo coisas de artes marciais. Como nossa mente gira violentamente para o imanente quando a nossa força de vontade, amparada pela Graça, deixa de vigiar um pouco que seja! O velho adágio, "desconfiar de nós e confiar em Deus", é o melhor conselho possível. A guerra já está vencida. O Inimigo já está derrotado. O Vitorioso já se declarou, ali, no madeiro da cruz. Que lado vou escolher? O perdedor ou o vencedor? A dissipação ou o trabalho? A boca-sujisse auto-indulgente ou a polida gravidade de um homem de Deus, que sabe rir sem ser um crápula? A fuga constante da rotina ou a vivência insistente da mesma? A mentira (ou restrição verbal) pertinente ou a coragem de assumir e viver na verdade? O jeitinho brasileiro ou a honestidade implacável? A busca do prazer do banho quente ou o banho gelado, que é mais do que merecemos? Que eu possa, Senhor, com o auxílio de Vossa Graça, amparado neste Vosso poço infinito de misericórdia, ser humilde, perceber que não sei nada, que sou um verme inútil, e daí obedecer a Vossa voz, tão boa, tão amável, e nela me alegrar. Apenas no Vosso seguimento há alegria, as luzes suntuosas do mundo na verdade escondem trevas negríssimas. Que, pela intercessão da Virgem Maria, possamos nos encontrar do lado vencedor no Dies Irae.


Jerusalém e o Templo são destruídos


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Segunda-Feira da 34ª Semana do Tempo Comum - 23/11/2020

Ap 14,1-3.4b-5, Sl 23, Lc 21,1-4

Estamos na última semana litúrgica do ano. Abrindo a semana com a festa de Jesus Cristo, Rei do Universo, continuamos lendo o apocalipse. Mas a mensagem do Evangelho é sobre o que meditarei: hoje, falamos da viúva que dá ao templo tudo que ela tem pra viver. Ela ofertou literalmente tudo o que tinha pra sobreviver, e ainda que fossem apenas alguns trocados, seu sacrifício foi muito mais agradável a Deus do que as grandes somas dadas pelos homens ricos. 
Obviamente este texto tem uma leitura espiritual, a respeito da nossa doação a Deus em tudo que fazemos, oferecendo a Ele tudo que temos. Mas vou focar mais na questão financeira mesmo. Estamos passando por um período de transição aqui em casa: minha esposa não foi capaz, por motivos justíssimos, de continuar o mestrado. Na melhor das hipóteses, não teremos mais a bolsa do CNPq que ela recebe. Na pior das hipóteses, se as justificativas para a desistência não forem aceitas, teremos que devolver uma soma que chega a quase 30.000 reais. Nossa renda, então, cairá bastante, o que nos forçará a algo que já deveríamos ter feito a tempos: um planejamento mais profundo de como gastar e um corte de praticamente tudo aquilo que é supérfluo. O que isso tem a ver com a viúva? Ora, numa época de corte de gastos, a primeira tendência é fechar a carteira e o rosto pr'aqueles que recorrem a nós, precisando de nossa ajuda. Claro, sejamos francos, não é todo mundo que pede que precisa, e não é toda ajuda que realmente ajuda, pois há muitos que usam o dinheiro dado por nós para se destruir. Mas a questão não é o que eles vão fazer, mas a nossa atitude perante o outro. Em primeiro lugar, quantas vezes gastamos com coisas que não nos fazem bem apenas para satisfazer um prazer, comprando doces, por exemplo? Em segundo lugar, Cristo disse para que fossemos generosos com quem pede, não que ficássemos vigiando a pessoa pra ver com que ela gastaria o que a gente está dando. Em terceiro lugar, e mais importante: é muito fácil usar esse "senso de responsabilidade" (ah, ele vai comprar drogas!) para justificar nossa falta de generosidade! Óbvio, é melhor dar comida que dinheiro, mas é necessário que não viremos as costas, ainda que doa, ainda que pareça que vai faltar pra nós no final, pois é justamente essa oferta confiante na providência de Deus, que diz que "tudo mais será acrescentado", que santifica, e não a doação do "excesso". O mesmo pode-se dizer do dízimo, da oferta, de toda sorte da ajuda financeira à paróquia ou instituições beneficentes ou religiosas. Que não fechemos o nosso coração, mesmo num período de vacas magras. A viúva era provavelmente mais pobre que os mais pobres de hoje, e ainda assim deu tudo para o Templo. Já vimos mendigos dando balinha pra nossa filha por pura vontade de presentear um bebê, ainda que aquela balinha seja importante para que eles possam comer a pobre comida cotidiana! Temos que ser generosos como os pobres. Devemos ser sim pão-duros, sim, mas conosco mesmos. Com quem precisa, generosidade. Ajuda-nos, ó Senhor, a sermos generosos, para que possamos Vos louvar com os cento e quarenta e quatro mil salvos, figura da totalidade dos bem-aventurados, ouvindo a canção que apenas os que Vos amam podem compreender. Stella Maris, Ora pro Nobis.

Viúva doando suas moedinhas ao Templo


domingo, 22 de novembro de 2020

34º Domingo do Tempo Comum - Jesus Cristo, Rei do Universo - 22/11

Ez 34,11-12.15-17, Sl 22, 1Cor 15,20-26.28, Mt 25,31-46

Hoje é festa de Jesus Cristo, Rei do Universo, repaginação da antiga festa de Cristo Rei do calendário tradicional. Evidente: todo homem está obrigado moralmente a adorar o Deus verdadeiro na pessoa de Jesus Cristo, e o reinado social de Nosso Senhor é sim uma meta a se buscar, mas não parece existir qualquer chance disto acontecer num futuro próximo. Essa meta, entretanto, não é um fim em si, mas tem como fim facilitar o reinado de Jesus no coração de todos os homens. Óbvio que sempre haverão aqueles que O negarão, isso na melhor das sociedades, mas um mundo tal como nosso, império de Anticristo, evidentemente faz com que muitos mais homens se percam, porque aquilo que pareceria evidente se torna obscuro. Não vemos tanta coisa errada, tantos falsos valores, tanto mal se passando por bem, no mundo atual? 
O Reinado Social só se pode dar numa sociedade católica, evangelizada e que saiba que essa é a meta. Nossa sociedade não é evangelizada, não conhece Cristo, não sabe quem Ele é, o que Ele nos veio dizer e o que Ele espera de resposta de nossa parte. Estamos em um mundo pós-cristão, pior ainda que o mundo pagão, pois lá, ao menos, o Cristianismo trazia o frescor de uma novidade. Era uma boa nova, não uma "boa velha". 
Entretanto, aquele mundo pagão foi evangelizado. Como? Pelo testemunho de fé dos primeiros cristãos, que abandonaram tudo, absolutamente tudo, para pregar a Jesus Cristo e deixar-se transformar por Ele. Não há santos tão santos quanto os da era apostólica, exceto os maiores santos da Igreja, justamente porque, para que o catolicismo se expandisse, muita santidade era necessária. Deus derramou graças especiais sobre aqueles primeiros discípulos de Cristo. Acho que, se desejamos que o mundo volte a prestar culto a Cristo como único Senhor, como Rei do Universo, é preciso que nos santifiquemos. Nossa época é marcada pela frouxidão e pela tibieza de nós, católicos. Vemos a vida de um São Paulo, e pensamos: "ah, isso não é pra nós, somos leigos, somos casados...". Vemos o chamado a uma vivência extraordinária do casamento, buscando agradar a Deus em cada instante desta vida oculta, no trabalho diário, no trato com os familiares, no trato com as pessoas, e não nos preocupamos com isso, pois parece-nos muito pouco. Dixit Jesus: quem for fiel no pouco, muito lhe será confiado. Algo assim. É óbvio que não dá pra trocarmos de vida, deixando pessoas na mão, pra viver um sonho de missionariedade, até porque seria um fracasso, pois quem não consegue viver santamente numa vida comum e cotidiana, não tem Cristo algum pra levar pros outros num contexto de missão. Mas quem é que vai levar o catolicismo às pessoas, se não houverem missionários? Nós mesmos, no contexto onde estamos inseridos? Talvez seja, talvez não, mas o primeiro passo é amarmos a Deus sobre todas as coisas, vivendo santamente o que nos cabe, negando-nos a nós mesmos e ouvindo a voz do pastor que chama pelas suas ovelhas e cuida delas, separando-as dos cabritos insolentes. 

Ser santo é festejar a majestade de Deus sobre nós. Antes do reinado social, é preciso que Cristo reino sobre nós, para que levemos essa verdade vital a todos os homens. Uma nação verdadeiramente evangelizada entronizará Jesus como Rei. Podemos, no máximo, rezar e viver de modo agradável à Ele: o resto está pra além de nossas capacidades. Tudo é perpassado pelo plano da providência. Pode ser que Ele nunca mais reine sobre este mundo aqui, mas no final dos tempos, quando soarem as trombetas e as forças da natureza entrarem em colapso, daí certamente Ele virá, submetendo tudo sobre seu reinado, e mandando "matar na frente dele" àqueles que não desejaram que Ele reinasse sobre seus corações. Que tenhamos coragem de fazer a nossa parte, para a Glória de Deus, para a salvação dos homens, levando a Verdade até todos os "pobres" que precisam dela (todos os homens!). Seremos, então, encontrados entre o número das ovelhas para as quais Jesus diz: "vinde, benditos de meu Pai".

 Que nesse Cristo Rei, eu possa permitir que o Senhor reine em meu coração, pela intercessão da augusta rainha dos Céus, Santíssima Virgem Maria. Se Ele reina, tudo é visto a luz da eternidade. E é apenas esta luz que pode nos fazer enxergar as coisas tais como elas de fato são, e o que devemos fazer de nós mesmos, com o auxílio da graça, para chegar até nosso fim último, ver Deus face a face. Que não sejamos tíbios, seguindo em frente com coragem. 
Viva Cristo Rei


Cristo Rei


Batismo do Senhor - 09/01/2022

Is 42,1-4,6-7 Sl 28: " Que o Senhor abençoe, com a paz, o seu povo" At 10, 34-38 Lc 3, 15-16,21-22 Começamos com uma leitura do pr...